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18/10 às 09h47

Você é uma galinha?

Esta √© uma hist√≥ria que vem de um pequeno pa√≠s da √Āfrica Ocidental, Gana, narrada por um educador popular, James Aggrey, nos in√≠cios deste s√©culo, quando se davam os embates pela descoloniza√ß√£o. Oxal√° nos fa√ßa pensar sempre a respeito.

“Era uma vez um camponês que foi à floresta vizinha apanhar um pássaro, a fim de mantê-lo cativo em casa. Conseguiu pegar um filhote de águia.

Colocou-o no galinheiro junto às galinhas. Cresceu como uma galinha.

Depois de cinco anos, esse homem recebeu em sua casa a visita de um naturalista.

Enquanto passeavam pelo jardim, disse o naturalista:

- Esse p√°ssaro a√≠ n√£o √© uma galinha. √Č uma √°guia.

- De fato, disse o homem.- √Č uma √°guia. Mas eu a criei como galinha. Ela n√£o √© mais √°guia. √Č uma galinha como as outras.

- Não, retrucou o naturalista.- Ela é e será sempre uma águia. Este coração a fará um dia voar às alturas.

- Não, insistiu o camponês. Ela virou galinha e jamais voará como águia.

Ent√£o decidiram fazer uma prova. O naturalista tomou a √°guia, ergueu-a bem alto e, desafiando-a, disse:

- Já que você de fato é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, então abra suas asas e voe!

A águia ficou sentada sobre o braço estendido do naturalista. Olhava distraidamente ao redor. Viu as galinhas lá embaixo, ciscando grãos. E pulou para junto delas.

O camponês comentou:

- Eu lhe disse, ela virou uma simples galinha!

- N√£o, tornou a insistir o naturalista. ‚Äď Ela √© uma √°guia. E uma √°guia sempre ser√° uma √°guia. Vamos experimentar novamente amanh√£.

No dia seguinte, o naturalista subiu com a √°guia no teto da casa.

Sussurrou-lhe:

- √Āguia, j√° que voc√™ √© uma √°guia, abra suas asas e voe!

Mas, quando a √°guia viu l√° embaixo as galinhas ciscando o ch√£o, pulou e foi parar junto delas.

O camponês sorriu e voltou a carga:

- Eu havia lhe dito, ela virou galinha!

- N√£o, respondeu firmemente o naturalista. ‚Äď Ela √© √°guia e possui sempre um cora√ß√£o de √°guia. Vamos experimentar ainda uma √ļltima vez. Amanh√£ a farei voar.

No dia seguinte, o naturalista e o camponês levantaram bem cedo. Pegaram a águia, levaram-na para o alto de uma montanha. O sol estava nascendo e
dourava os picos das montanhas.

O naturalista ergueu a √°guia para o alto e ordenou-lhe:

- √Āguia, j√° que voc√™ √© uma √°guia, j√° que voc√™ pertence ao c√©u e n√£o √† terra, abra suas asas e voe!

A √°guia olhou ao redor. Tremia, como se experimentasse nova vida. Mas n√£o voou. Ent√£o, o naturalista segurou-a firmemente, bem na dire√ß√£o do sol, de sorte que seus olhos pudessem se encher de claridade e ganhar as dimens√Ķes do vasto horizonte.

Foi quando ela abriu suas potentes asas.

Ergueu-se, soberana, sobre si mesma. E começou a voar, a voar para o alto e voar cada vez mais para o alto.

Voou. E nunca mais retornou.

Existem pessoas que nos fazem pensar como galinhas. E ainda até pensamos que somos efetivamente galinhas. Porém é preciso ser águia. Abrir as asas e voar. Voar como as águias. E jamais se contentar com os grãos que jogam aos pés para ciscar.

Leonardo Boff


Via: amoreummovimento.com

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